Ser Pai

EM FAMÍLIA - O PIERCING

Crônica de Claudino Nunes Deixa, pai... – voltou à carga minha filha de 15 anos, que há uma semana insistia em colocar um piercing na língua.
- Ah, não. Lá vem você com essa ladainha de novo – retruquei, sem nem ao menos olhar pra ela.
- Mas todo mundo usa... – argumentou, quase chorando.
- Todo mundo quem, Maria-vai-com-as-outras?
- A Rô, o Leco, a Rê, a Paula, a Vi...
- Será que você não se dá conta de que isso pode fazer mal pra sua saúde?
Minha mulher, que assistia a mais uma de nossas discussões, interveio:
- Mal não faz. E ela pode tirar se fizer...
Era só o que me faltava. A guria havia conseguido um reforço de peso. Nessa altura eu era quase voto vencido.
- Não. E chega dessa história – afirmei, decidido.
- Que frescura, pai. Não é na tua língua. Parece que nunca foi jovem...
Fechei a cara. Meus pensamentos foram a 1975. Lembrei de meu pai, militar, reclamando do meu cabelo quase na cintura, de minhas roupas psicodélicas.
- Parece coisa de mulher – dizia ele.
- Só parece, pai, porque sou muito macho e não é o cabelo que faz alguém ser mais homem que outro – respondera, ofendido.
A voz de minha filha evaporou meu “flash back”.
- Eu vô bem na escola, tô quase me formando. Por que não colocar alguma coisa que eu gosto?
Era verdade, admiti. A guria, além de boa numa discussão, ia bem no colégio. Acho até que vai ser advogada, de piercing e tudo.
- Tudo bem, mas depois não vem reclamar que tá doendo, que não consegue comer – declarei.
- Brigada, pai – agradeceu, me dando um abraço e me enchendo de beijos.
Olhei pra ela. Seu rostinho irradiava felicidade. Também fui invadido por uma sensação gostosa. Lembrei de meus longos cabelos, calças boca-de-sino, sapato de plataforma. Tanta coisa ridícula... E sorri. Ela aproveitou a deixa.
- Agora mi dá o dinheiro...


* Claudino Nunes é jornalista, radialista e escritor. Natural de Bagé-RS, é Assessor de Imprensa da Câmara Municipal de Paranaguá-PR.


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