Ser Pai

ADOÇÃO - CRIANÇAS NA PRATELEIRA

- Senhor! Por favor será que o senhor poderia embrulhar para mim aquela criança ali?
- Pois não senhora, qual delas? Temos de todas os tipos...- entendi...mas eu quero aquela! recém nascida, loirinha e de olhos azuis como eu sempre sonhei...

Ao começar a ler o texto muitas pessoas podem achar que a piada seja de mau gosto, pois referir-se dessa forma à uma criança e tratar sobre adoção que é um processo delicado com todo este escárnio pode ser um tapa com luvas de pelica em várias pessoas que aguardam na fila para adotarem.

Segundo o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) existem atualmente 30.983 pretendentes à adoção e 5429 crianças cadastradas aguardando ansiosas por um lar, mas afinal de contas que tipo de operação matemática é essa na qual o número de interessados em adotar é quase cinco vezes maior que o número de crianças entulhadas nos abrigos?

O problema está no perfil exigido pelos pretendentes, qualidades que podem atrasar o processo de adoção em até cinco anos, se os futuros pais fossem menos exigentes o processo poderia durar em média um ano.

Infelizmente a maioria dos que desejam adotar preferem crianças parecidas com as dos comerciais de TV, lindas, saudáveis, de pele clara, olhos azuis e de preferência bebês, mas o que passa desapercebido pelas mesmas é a dura realidade do país no qual vivemos! Esquecem que o Brasil ainda é para muitos um país pobre, onde várias famílias vivem mergulhadas na miséria, um país de analfabetos, de falta de moradia, de hospitais...enfim um país onde o índice de natalidade é bastante alto o que contribui para que os pais abandonem seus próprios filhos no intuito de que os mesmos encontrem em um lar substituto um futuro melhor. Essas crianças quando chegam aos abrigos não se parecem em nada com mini modelos publicitários, são sofridas, negras, pardas, acompanhadas de irmãos, muitas com algum tipo de doença e na sua maioria esmagadora tem acima de doze anos de idade o que vem a ser um fator quase que determinante para que jamais tenham o prazer de fazer parte novamente de uma família.

De acordo com o CNA (Cadastro Nacional de Adoção) existem 5,4 mil crianças e jovens na lista e desses 4,3 mil tem acima de 9 anos.

O que fazer então? O que esses pequenos podem esperar do futuro?

Uma boa alternativa seria a facilitação do processo de adoção principalmente em relação aos casais homoafetivos, muitos lutam na justiça pelo direito de adotar uma criança e pode ser que eles por sentirem na própria pele a intolerância da sociedade não tenham tantas exigências assim na hora de adotar, e que dessa maneira possam minimizar o abismo existente entre os pretendentes a pais e os disponíveis a uma vida feliz, talvez, quem sabe, no dia em que as pessoas interessarem se realmente em fazer o bem sem olhar a quem os produtos das prateleiras se esgotarão.

 

DIREITO DAS FAMÍLIAS PARA TODOS

 

Drª Andrea Mendes Cavalcante Rodrigues

Pós-graduada em direito público pela Universidade Católica de Brasília.

Pós-graduanda em direito das famílias e sucessões pela Universidade Cândido Mendes.

Membro do IBDFAM.

 

Fontes:

Www.cnj.jus.br

 

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